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Generalidades com Especificidade

Generalidades com Especificidade

sábado, 30 de setembro de 2023

Tempos do "novo normal".

 Os tempos andam bastante diferentes do que costumavam ser. O clima mudou de forma que não o entendemos mais, sendo que os mais antigos não veem paralelo com os acontecimentos do passado, mesmo que de alguma forma alguns fenômenos venham se repetindo.

As inundações recente no vale do Taquari no Rio Grande do Sul evidenciam que as populações fundaram suas cidades praticamente no leito dos rios, mesmo que esses poucas vezes tenham requeridos estes espaços para desaguarem sua fúria. Os eventos chuvosos se avolumaram sobremaneira nestes últimos meses, repetindo e sobrepujando os níveis mais alarmantes do passado, na capital a famigerada enchente de 1941.

O Guaíba antes catalogado com estuário, já passou pela qualificação de rio e de lago, ficando esta última como sua configuração oficial. Existe muita controvérsia a respeito de sua denominação, sendo que muitos atribuem ao lobby da exploração imobiliária a denominação de lago, já que, se fosse um rio, não se poderia desmatar com facilidade as margens, nem construir muito próximo de suas águas e, a denominação de "lago" permitiria uma maior aproximação das construções. Enfim, a despeito destas elucubrações, registro em fotos e atualizo a situação do Guaiba na cidade de mesmo nome. Depois de retroceder alguns palmos na semana, o vento sul entrando pela lagoa fez com que o nível das águas voltasse a lamber as ruas da cidade, depois de inundar ilhas e colocar muitas pessoas em situação de desabrigo em várias regiões da região metropolitana e do estado.

A seguir fotografias feitas no dia 30/09/2023 às 16 h.









quarta-feira, 12 de abril de 2023

Mudança de Tempo


 Ontem fazia calor na noite calma, os veículos diminuíam a circulação, o ar se tronava respirável e convidativo à uma longa pedalada. Enquanto seguia pelas ruas, lembrei que o noticiário do tempo previa para o meio da semana a volta dos tempo frio e chuvoso ao estado. O pensamento tornou ainda mais agradável o passeio, que fiz de modo rápido e forçado, buscando desfrutar o máximo do exercício.
Também, fui ao encontro de um amigo de infância, e batemos um longo papo sob uma árvore, enquanto a luz da lua minguante iluminava a noite.
O inverno se aproxima e, um tempo de recolhimento no mais cedo da noite deve-se iniciar, as pedaladas menos frequentes e as saídas noturnas mais raras. Tudo isto não deve tornar pior ou melhor a vida. Simplesmente uma forma diferente que chega com a nova estação.
Que a saúde, temperança e bom convívio sejam amigos presentes nesse novo tempo.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Música na Cabeça

 


Quando completei sete anos de idade eu costumava brincar no fundo do quintal de casa, certa vez ouvi um zumbido nos ouvidos. Não era no nível físico do tímpano, bigorna, martelo, etc. Era um som que eu escutava na cabeça ninguém mais podia ouvir, mesmo minha mãe que eu interpelava quando aquele ruído chegava. Minha mãe chegou mesmo a cogitar uma consulta com o médico da cidade para investigar o caso, mas, não fomos adiante, pois, comecei a me acostumar e até a gostar dos ruídos. Eles ficaram mais frequentes e passaram a fazer sentido para mim. Algumas vezes eram melódicos e suaves, muitas vezes atonais e agressivos, no entanto, sempre intensos e profundos. De certa forma esses sons eram padronizados e se repetiam de tempos em tempos, quando iniciavam eu já vislumbrava toda a sequencia seguinte, até o final, normalmente seco e abrupto. No inicio vinham quando eu estava em silencio e distraído com alguma coisa ou, simplesmente divagando, depois apareciam em horas impróprias e até nas horas de concentração na escola.

Foram cerca de quatro anos ouvindo e tentando compreender aquilo, algumas vezes me sentindo frustrado por não saber de onde vinham, para que serviam e quais as consequências dos tais ruídos. Dos onze até os dezesseis anos, com as atribulações da adolescência, fase de maior concentração nos estudos e a socialização natural da idade, tudo havia sumido. Por mais que eu me concentrasse nada ouvia, a chave tinha se desligado e, sem prejuízo algum, estava ocupado demais para isso.

Um dia comecei a ler uma revista mensal, que trazia muitas matérias e entrevistas com músicos nacionais e internacionais, começando a me chamar atenção para o rock n' roll e suas vertentes. Entre as matérias e fotos sempre me chamavam a atenção a figura de um guitarrista negro e sua trajetória. O modo como tacava e cantava e a morte jovem aos vinte e sete anos. Eu não tinha acesso a discos, e no radio aquela música não tocava, sobretudo nas rádios am, que costumávamos ouvir. 

Passaram se muitos meses até que em uma roda de amigos o assunto do tal guitarrista veio à tona, e os mais informados diziam já ter ouvido o músico e seus álbuns. Também surgiu entre nós, através do inúmeros "escambos" que fazíamos, um fita cassete com algumas gravações atribuídas à ele.  Ainda não foi desta vez que comecei a relacionar os sons que eu ouvia em minha mente, no passado, com os sons de Jimi Hendrix. Mais tarde quando comecei a adquirir seus discos ou ouvi-los na casa de amigos, entendi que por algum misterioso imbróglio do tempo, alguns fragmentos de sua música chegavam até minha cabeça de uma forma quase mediúnica, por assim dizer. Muitas das introduções, finais, estribilhos, solos, etc. eu já conhecia, sabia como começavam e terminavam. "Spanish castle magic", "Purple haze", "Voodoo Child" e "Machine gun" eu praticamente conhecia de cor, outras eu já supunha e antecipava algumas partes em uníssono assoviando. Todos ficavam impressionados como eu já conhecia  aquilo, eu apenas ria.

No fim tudo se tornou apenas uma grande admiração pela arte musical de um dos maiores gênios da música mundial, até hoje adoro sua música e tudo de que lhe diz respeito. Nunca soube explicar o fato, nem procurei muito pela solução.

É isso

  



terça-feira, 26 de julho de 2022

No chão, poeira


 Eu tinha por volta dos dez anos de idade, morávamos no interior, num lugar de uma beleza exuberante, num tempo muito feliz. As coisas eram diferentes mesmo na humildade da pobreza, era possível uma vida digna e alegre. Era um momento difícil para meus pais, mas, não era ainda nem a sombra do que passariam em anos posteriores. Por motivos de saúde de minha mãe que precisou fazer uma cirurgia em tempo curto, o casal teve que se deslocar para uma cidade distante, um outro município bem além do que vivíamos. Eu tinha mais alguns irmãos mas, os que não eram casados ainda, por algum motivo que não consigo lembrar, estiveram ausentes durante toda uma semana. Eu fiquei sozinho em uma casa enorme de alvenaria, um construção de mais de cem anos, que reformada em parte, era nossa casa. Ela era tão grande que demolida uma parte, com o material meu pai construiu um enorme celeiro para guardas as maquinas. A casa quando vazia era assustadora e fria, passei noites terríveis naquela semana.

O lugar um enorme sítio que meu pai havia comprado com empréstimos, se mostrou impróprio para o cultivo do arroz, ao qual meu pai tinha afinidade. Com o pouco rendimento em outras culturas, os recursos não foram suficientes para saldar as dívidas e a propriedade precisou ser entregue ao banco. Com o intuito de proporcionar melhores condições para a família, meus pais, aproveitando a hospitalização da minha mãe procuraram imaginar uma mudança para a cidade em que ela estava, e assim o fizeram em pouco tempo.

Não havia o que comer na casa, devido a saída intempestiva de meus pais, as provisões não foram compradas e, eu deveria ficar sob o cuidado de irmãos, que simplesmente sumiram, esperando que um cuidaria de mim, nenhum se preocupou que na verdade, eu ficara sozinho. Corajoso não cheguei a me assustar com isso, tinha a certeza que em algum momento em breve meu pai viria me buscar.

A propriedade era cruzada por um riacho de águas cristalinas, que represado para obter-se água para o arrozal, ficava bastante profundo em algumas partes. Numa tarde de muito calor, depois de comer laranjas e algumas bergamotas, fui nadar na represa, o que eu fazia costumeiramente. Da barragem se avistava a estrada de chão batido, que cruzando a ponte passava na frente da nossa casa e seguia em frente, para as serras da localidade, num caminho sinuoso de grandes subidas. Eu olhei para a tal estrada, separada de onde eu estava por uma nesga de campo de cerca mil metros, em linha reta e plana. Entre eu, a estrada e minha casa formava-se um triângulo imaginário. O trajeto de uma pessoa na estrada indo em direção a casa, seria a base do triangulo e, no meu ponto de vista, eu seria o vértice, a casa o outro angulo da base. Eu avistei uma pessoa, diminuta na distância, mas reconheci meu pai, caminhando rápido, com um leve coxear, sequela de uma acidente de trabalho. Imediatamente me dirigi correndo para casa, para o portão de entrada, onde cheguei junto com meu pai, eu e ele em lágrimas  demos um longo abraço, eu na ponta dos pés, recebi seu beijo e o roçar de seu bigode em minha testa.

Meu pai trouxe comida e bebida e, enquanto comíamos ele me disse, vou pegar todas as roupas de tua mãe que ficaram, pega todas as tuas arruma em uma maleta, ou bolsa, pega algum brinquedo pequeno, os demais ficam, nós vamos embora, ver tua mãe. Ela fez a cirurgia e está bem. Comemos, dormimos e, quando acordei bem cedo, meu pai escrevia um bilhete com instruções para meus irmãos que ficaram, (não sei onde), tomamos o expresso da serra por volta das sete da manhã, olhei pela última vez para a velha casa branca, pouco a pouco encoberta pela poeira que o veículo fazia. Para trás um passado de dificuldades para meus país, mas, de muita alegria também. Pra frente o futuro, o incerto e amedrontador futuro.

domingo, 10 de outubro de 2021

Joni Mitchell


 Roberta Joan "Joni" Mitchell, nascida Roberta Joan Anderson, CC (Fort Macleod, 7 de novembro de 1943), é uma cantora, vocalista solo, artista plástica e poetisa canadense. Foi considerada a 75º melhor guitarrista de todos os tempos pela revista norte-americana Rolling Stone, que também a citou como "uma das melhores compositoras da história".[2] De acordo com uma declaração da AllMusic, "Quando a poeira baixar, Joni Mitchell pode vir a ser a artista musical feminina mais importante e influente do século XX".

Alcançou o sucesso na década de 1970, fazendo uma música influenciada pelo jazz e pelo folk rock. Suas composições frequentemente refletem ideias sociais e ambientais assim como seus sentimentos sobre romance, confusão, desilusões e alegria. Ela recebeu muitos prêmios, incluindo nove Grammys. Gravou dois discos que entraram para a história: Clouds, de 1969, e Blue, de 1971, que ocupa a 30ª posição na lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos da revista Rolling Stone.


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

A música dos aguapés



Eu passeava por uma rua de terra margeada por uma fileira de velhões casarões coloniais, todas em péssimo estado de conservação. Nessa série de habitações, um lote vazio cercado por alguns fios de arame farpado me chamou a atenção. Dentro dele uma mulher parecia fazer algum trabalho manual, talvez, reparando a tal cerca, virando-se eu vi que era minha mãe. Perguntei-lhe o que estava fazendo naquele lugar, ela disse que estava fazendo o que aprendera e, auxiliava a quem precisasse.

O local era muito bonito, apesar de ter ares de abandono, a única coisa viva ali era a grama rarefeita sobre o solo ressequido e as mãos hábeis de minha mãe, e ela própria. Minha mãe me convidou a entrar, só então notei que meus pés pisoteavam algum lugar úmido, minhas pegadas deixavam afundado o lugar onde eu pisava, a sensação era boa, eu olhava para trás e percebia essa umidade, que fazia um contraponto com a aridez de algumas partes e, que eu havia percebido primeiramente. A presença de minha mãe era muito agradável e uma brisa fresca e refrescante soprava em nossos rostos, ela então apontou para o que seria o fundo do tal terreno, ou lote, e eu percebi que era um lugar muito alto e que lá embaixo vicejava uma planície muito verde, exuberante, onde um céu muito azul com nuvens muito brancas em movimento se fundia com o horizonte montanhoso, muito longe, a perder de vista. Desci por um talude muito alinhado e fácil de vencer o declive e, lá debaixo pude avistar todas as casas pela parte dos fundos e minha mãe que parada com as mãos para trás me observava. Comentei em voz alta para que ela ouvisse que o talude era muito bem feito e aprumado e tinha sinais de que tinha sido feito com uma máquina apropriada para a tarefa, mas, ela nada respondeu e continuou a me olhar, seus cabelos negros e ondulados dançavam ao vento, ela estava mais bonita do que nunca, pude perceber, e isso me deixou contente. Olhando para frente no nível inferior vi que tinha uma espécie de charco, com muitos aguapés, alguns muito floridos com flores brancas, de uma alvura que chegava a cegar, eram tantos aguapés que era impossível ver a água sob eles. De repente vindo da direção desses aguapés, uma música muito linda e agradável começou a tocar. Impossível descrevê-la, mas eram instrumentos de sopro que eram mimetizados pelas folhas dos aguapés, cada posição que as folhas tomavam emitia uma nota diferente, as mais verticais e enroladas davam notas agudas e afinadas, outras mais encorpadas eram notas graves e davam a base para a belíssima melodia. O farfalhar de alguns ramos secos produziam um barítono crescente que se fundia em notas angelicais ao fazerem contraponto com o movimento que o vento causava ao mover as flores e, uma arvore muito frondosa ao longe parecia reger aquela orquestra, como num desenho animado de uma alegoria do “Looney Tunes”. Parecia que eu não a ouvia com os ouvidos, pois, eu sentia com a alma, com o mais profundo de meus sentimentos, e desejava que minha mãe também a estivesse ouvindo, mas, não podia averiguar isso, pois nesse momento eu não mais a avistava, pois, havia fugido do meu ponto de observação devido ao movimento que fiz me deslocando mais para frente e, agora tentando subir pelo aclive. A música era tão bonita que a vontade que eu tive era de chorar de felicidade, e olhando para cima expressei isso para minha mãe, ela nada disse e a música subitamente cessou, eu já estava junto de mamãe, ela me acolheu em seus braços, pude sentir seu calor, a mesma sensação que eu tinha quando era pequeno, tinha frio e ela me acolhia em seu colo. Eu havia esquecido essa sensação agradável, verdadeiramente de como era, agora não esqueço mais. Abraçado nela, e firmemente rodeado por seus braços eu pedi-lhe que aguardássemos assim até que a música voltasse, pois eu queria que ela ouvisse também. Minha cabeça colada a sua barriga, pude sentir a vibração de seu corpo, mas nos afastamos, pois no silencio que se fez eu temi que a tivesse chateando com minhas divagações e talvez a música nem tivesse existido e, fosse apenas um sonho dentro daquele sonho.

Agora parecia que o dia se desfazia e uma penumbra ia tomando conta de tudo, as cores iam se suavizando, um crepúsculo maravilhoso tomava corpo, eu estava sozinho. Olhando para o vale lá embaixo, tive a sensação de que lá o tempo se escondia, e que de alguma forma me foi concedido à possibilidade de visitar o passado e podido vislumbrar um pouco do futuro, mas esse último eu me esqueci de como foi. Então eu esperei para ouvir novamente a música dos aguapés e ela não tocou, restou, porém, uma sensação muito boa de ter compartilhado uns poucos momentos com minha mãe.



terça-feira, 18 de maio de 2021

O Dia em que o Blues chegou à Cidade

 



Em 1966, dois jovens produtores Canadenses, Paddy Sampson e Barry Callaghan,  trouxeram 20 dos melhores músicos de blues da América - incluindo Muddy Waters, Otis Spann e Mable Hillery - para o Canadá para gravar um especial, sem ensaio algum. As sessões de gravação duraram 3 dias e o resultado foi originalmente televisionado como parte da série "Festival" da CBC TV, com o nome simples de “The Blues”.

O especial contou com nomes como Muddy Waters, Willie Dixon, Sunnyland Slim, Otis Spann, Sonny Terry, Bukka White e Mable Hillery.  

 Mais tarde em 1996, essas fitas foram encontradas e restauradas pela equipe do diretor da CBC TV, Chris Paton  que remasterizou o material com um bem feito tratamento de imagens e produziu um belíssimo documentário, chamando esse documentário de “Colin James Apresenta os Mestres do Blues”, onde, o blueseiro Canadense Colin James nos leva em um tour por essas apresentações clássicas. Um dos pontos altos é quando Colin James, num bem bolado truque cinematográfico toca e canta com Willie Dixon, a canção “Crazy for my baby”, e no final a emocionante interpretação do grupo todo para “Bye bye baby, goodbye” de Muddy Waters.

I m p e r d í v e l