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Generalidades com Especificidade

Generalidades com Especificidade

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

A música dos aguapés



Eu passeava por uma rua de terra margeada por uma fileira de velhões casarões coloniais, todas em péssimo estado de conservação. Nessa série de habitações, um lote vazio cercado por alguns fios de arame farpado me chamou a atenção. Dentro dele uma mulher parecia fazer algum trabalho manual, talvez, reparando a tal cerca, virando-se eu vi que era minha mãe. Perguntei-lhe o que estava fazendo naquele lugar, ela disse que estava fazendo o que aprendera e, auxiliava a quem precisasse.

O local era muito bonito, apesar de ter ares de abandono, a única coisa viva ali era a grama rarefeita sobre o solo ressequido e as mãos hábeis de minha mãe, e ela própria. Minha mãe me convidou a entrar, só então notei que meus pés pisoteavam algum lugar úmido, minhas pegadas deixavam afundado o lugar onde eu pisava, a sensação era boa, eu olhava para trás e percebia essa umidade, que fazia um contraponto com a aridez de algumas partes e, que eu havia percebido primeiramente. A presença de minha mãe era muito agradável e uma brisa fresca e refrescante soprava em nossos rostos, ela então apontou para o que seria o fundo do tal terreno, ou lote, e eu percebi que era um lugar muito alto e que lá embaixo vicejava uma planície muito verde, exuberante, onde um céu muito azul com nuvens muito brancas em movimento se fundia com o horizonte montanhoso, muito longe, a perder de vista. Desci por um talude muito alinhado e fácil de vencer o declive e, lá debaixo pude avistar todas as casas pela parte dos fundos e minha mãe que parada com as mãos para trás me observava. Comentei em voz alta para que ela ouvisse que o talude era muito bem feito e aprumado e tinha sinais de que tinha sido feito com uma máquina apropriada para a tarefa, mas, ela nada respondeu e continuou a me olhar, seus cabelos negros e ondulados dançavam ao vento, ela estava mais bonita do que nunca, pude perceber, e isso me deixou contente. Olhando para frente no nível inferior vi que tinha uma espécie de charco, com muitos aguapés, alguns muito floridos com flores brancas, de uma alvura que chegava a cegar, eram tantos aguapés que era impossível ver a água sob eles. De repente vindo da direção desses aguapés, uma música muito linda e agradável começou a tocar. Impossível descrevê-la, mas eram instrumentos de sopro que eram mimetizados pelas folhas dos aguapés, cada posição que as folhas tomavam emitia uma nota diferente, as mais verticais e enroladas davam notas agudas e afinadas, outras mais encorpadas eram notas graves e davam a base para a belíssima melodia. O farfalhar de alguns ramos secos produziam um barítono crescente que se fundia em notas angelicais ao fazerem contraponto com o movimento que o vento causava ao mover as flores e, uma arvore muito frondosa ao longe parecia reger aquela orquestra, como num desenho animado de uma alegoria do “Looney Tunes”. Parecia que eu não a ouvia com os ouvidos, pois, eu sentia com a alma, com o mais profundo de meus sentimentos, e desejava que minha mãe também a estivesse ouvindo, mas, não podia averiguar isso, pois nesse momento eu não mais a avistava, pois, havia fugido do meu ponto de observação devido ao movimento que fiz me deslocando mais para frente e, agora tentando subir pelo aclive. A música era tão bonita que a vontade que eu tive era de chorar de felicidade, e olhando para cima expressei isso para minha mãe, ela nada disse e a música subitamente cessou, eu já estava junto de mamãe, ela me acolheu em seus braços, pude sentir seu calor, a mesma sensação que eu tinha quando era pequeno, tinha frio e ela me acolhia em seu colo. Eu havia esquecido essa sensação agradável, verdadeiramente de como era, agora não esqueço mais. Abraçado nela, e firmemente rodeado por seus braços eu pedi-lhe que aguardássemos assim até que a música voltasse, pois eu queria que ela ouvisse também. Minha cabeça colada a sua barriga, pude sentir a vibração de seu corpo, mas nos afastamos, pois no silencio que se fez eu temi que a tivesse chateando com minhas divagações e talvez a música nem tivesse existido e, fosse apenas um sonho dentro daquele sonho.

Agora parecia que o dia se desfazia e uma penumbra ia tomando conta de tudo, as cores iam se suavizando, um crepúsculo maravilhoso tomava corpo, eu estava sozinho. Olhando para o vale lá embaixo, tive a sensação de que lá o tempo se escondia, e que de alguma forma me foi concedido à possibilidade de visitar o passado e podido vislumbrar um pouco do futuro, mas esse último eu me esqueci de como foi. Então eu esperei para ouvir novamente a música dos aguapés e ela não tocou, restou, porém, uma sensação muito boa de ter compartilhado uns poucos momentos com minha mãe.



terça-feira, 18 de maio de 2021

O Dia em que o Blues chegou à Cidade

 



Em 1966, dois jovens produtores Canadenses, Paddy Sampson e Barry Callaghan,  trouxeram 20 dos melhores músicos de blues da América - incluindo Muddy Waters, Otis Spann e Mable Hillery - para o Canadá para gravar um especial, sem ensaio algum. As sessões de gravação duraram 3 dias e o resultado foi originalmente televisionado como parte da série "Festival" da CBC TV, com o nome simples de “The Blues”.

O especial contou com nomes como Muddy Waters, Willie Dixon, Sunnyland Slim, Otis Spann, Sonny Terry, Bukka White e Mable Hillery.  

 Mais tarde em 1996, essas fitas foram encontradas e restauradas pela equipe do diretor da CBC TV, Chris Paton  que remasterizou o material com um bem feito tratamento de imagens e produziu um belíssimo documentário, chamando esse documentário de “Colin James Apresenta os Mestres do Blues”, onde, o blueseiro Canadense Colin James nos leva em um tour por essas apresentações clássicas. Um dos pontos altos é quando Colin James, num bem bolado truque cinematográfico toca e canta com Willie Dixon, a canção “Crazy for my baby”, e no final a emocionante interpretação do grupo todo para “Bye bye baby, goodbye” de Muddy Waters.

I m p e r d í v e l

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Ao Amigo Eterno

 


Datas comemorativas sempre trazem consigo lembranças e, nos remetem a mergulhos interiores que nem sempre  são bons ou, trazem à tona sentimentos desagradáveis. Muitas vezes não se comemora nada em uma data festiva, sobretudo em datas ligadas ao nosso histórico de vida.

Minhas datas de aniversário, que tento manter o mais impessoais possível, sem encanar muito nem mergulhar em lembranças e rememorações. Algumas coisas, porém, são impossíveis de esquecer e não trazer à baila. Os abraços e beijos dos pais, lembranças daqueles que partiram, etc. Eu, particularmente, tenho sempre a lembrança de uma amigo de infância que já se foi, e que fazia aniversário quase junto ao meu, um ano e um dia antes. E a ele, dedico o dia de hoje, além do dia de ontem, pelas aventuras que fizemos, mesmo que não tenham ido além de quadras de distância de nossas casas, na maioria mas, também pelas longas conversas e trocas de informações musicais. Pelas nossas infinitas bandas que montamos na imaginação, conquistas e sonhos que tivemos um dia. 

Com a idade vieram algumas diferenças de atitudes e visões de vida, a bifurcação do destino nos manteve separados por algum tempo, mesmo que fisicamente estivéssemos sempre por perto um do outro. Família, trabalho, estudos, saúde e outras exigências da existência. Nos últimos meses que pudemos ficar mais perto, foi como na infância, com muitas risadas e outras diversões, por algum tempo nossa idade era apenas um detalhe. Estávamos mais maduros, tudo havia envelhecido um pouco ao nosso redor e as coisas já não tinham mais o brilho de antigamente, mas ainda eram muito boas as sensações da proximidade e da parceria. Falar das namoradas, dos discos, dos shows...muito bom.

Se Deus quiser, a gente possa um dia se encontrar em algum outro plano ou lugar, tomara a vida não ser tão ingrata a ponto de não haver mais nada...seria tão injusto ou, quem sabe seja esssa a beleza e a raridade de tudo.

Feliz aniversário, Mauro. (onde quer que tu
estejas) 

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Gerações

A vida segue independentemente de nossa vontade. Como resultado das gerações a humanidade avança na sua trajetória rumo ao infinito. A vida acontece a partir dela mesmo, somos seres que brotamos uns de dentro dos outros em um processo maravilhoso e misterioso em que carregamos parte daqueles de onde viemos e, levamos adiante para os que a partir de nós forem gerados. O grande milagre da vida é estar vivo _ agradeço a Deus e ao universo por essa dádiva.
Dona Florência a pessoa mais velha de nosso núcleo familiar e Ruan Anthony o mais novo membro, sua bisavó, minha sogra e ele, meu neto amado.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Jornadas II

A figueira frondosa fez sombra para membros das famílias Freitas, Araújo, Barbosa e Hoff, em Ponta do Salgado - Barra do Ribeiro, por volta de 1938

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Jornadas

No início da década de sessenta, provavelmente ente 1964 e 1965, a escola Rural de Curral Grande, seus alunos e familiares embarcaram em uma deliciosa excursão de ônibus, desde Santa Vitória do Palmar até o Chuy, cidade na fronteira entre Brasil e Uruguay, separada de Chui, no Brasil por apenas um canteiro de flores. Uma linda tarde ensolarada de inverno, um vento soprava quando fizemos essa foto, lembro como hoje fosse.
Minha mãe é a mulher mais alta do grupo de cinco de pé acima a direita, eu sou o segundo das crianças sentadas logo abaixo a direta. A esquerda também de pé,
o primeiro  é o motorista do ônibus, e o sétimo menino a contar dele é um de meus irmãos.

sexta-feira, 26 de julho de 2019