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Generalidades com Especificidade

Generalidades com Especificidade

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Paraíso Artificial


A tarde ensolarada e calorenta fazia com que  a umidade do inverno que passara, escorresse  pelas paredes de alvenaria antigas da rua, o cheiro da fumaça dos automóveis misturada aos inúmeros odores dos carrinhos de pipoca e cachorro-quente me embrulhavam o estomago. Caminhei apressado tentando me livrar daquilo tudo, entrei por uma portinhola que dava no pé de uma longa escadaria, onde no topo em uma velha mais bem conservada  escrivaninha uma morena prontificou-se a me atender:
_Boa tarde, quer fumar?
_C..c..como?
_Perguntei se quer fumar! Aqui é uma casa de ópio.
A afirmação me pegou de surpresa, nem sei porque estava ali.
_Quanto é? - Perguntei interessado, ou apenas para dar continuidade a conversa.
_Quinhentas pratas, pague depois a sessão. Disse me segurando pela mão e me conduzindo a uma outra dependência. Notei a bonita decoração em papel de parede floreado com motivos árabes e o intenso cheiro de incenso, chegamos a uma espécie de quarto bastante arejado, as cortinas  balançavam com o sopro de uma briza leve, que no nível térreo não existia. Tinha uma grande sofá com arabescos e filigranas douradas bordadas, com almofadas combinando. No chão  um colchonete de uma alvura ímpar situado ao lado de um  magnífico narguilé prateado com detalhes em relevo davam um tom místico ao ambiente
_Fique a vontade, já volto, se quiser tire a camisa e sirva-se de uma bebida.
Foi então que notei  sob a penumbra em um cantinho finamente decorado, uma mesinha redonda ao lado de um frigobar. Sobre ela diversas garrafas de uísque, camparí, rum e outras bebidas que não identifiquei de imediato.
_Não bebo obrigado.
A fabulosa morena, virou-se e me dirigindo um olhar de canto de olho malicioso e gentil sumiu pela porta afora. Tirei a camisa, os sapatos e deitei-me no colchonete olhando para cima, para o teto do qual oscilava um belo lustre do tipo castiçal e que no lugar de velas tinha lâmpadas bastante suavizadas, destas que possuem um potenciômetro ao lado do interruptor, que regula a luminosidade. Notei que tudo era muito limpo e asseado. Virei a cabeça para  o lado e vi meu rosto distorcido refletido engraçadamente no metal prateado do bojo o narguilé, ao mesmo tempo que a morena que agora estava vestida como um odalisca entrou no quarto portando um caixa em suas mãos. Ajoelhou-se ao meu lado, senti o cheiro do sândalo invadir minhas narinas, seu sorriso era fabuloso, olhos imensos, lábios carnudos e seios fartos, com movimentos ritmados e suaves começou a manipular a caixa que trouxera.
_Fique tranquilo vou preparar o cachimbo - Disse com voz meiga e pausada, apenas concordei com um movimento vertical da cabeça, já que não conseguia desviar os olhos de seu generoso decote. Em segundos senti o cheiro forte do fumo base impregnar o lugar, ela deu uma longa baforada para avivar o queimador, adicionou o ópio, deu uma tragada demorada, segurou-a nos pulmões, soltou, repetiu o movimento e me passou a piteira. Tudo era de uma qualidade impecável. O ópio era suave e do bom, com duas tragadas eu já sentia-me flutuando sobre um colchão de nuvens. Fiquei meio inquieto com a sensação e devo ter feito algum movimento com o corpo.
_Relaxe, vou lhe fazer um massagem. - Consenti com o olhar. Ela começou a acariciar meu peito, suas mãos suaves deslizavam numa carícia inebriante que aos poucos se tornaram uma massagem mais vigorosa, mais não menos agradável. Ajeitando-se ao meu lado, desafivelou minha cinta e baixou minhas calças até os joelhos, untou as mãos com óleo de um pequeno frasco retirado da caixinha, massageando meu tórax em direção ao púbis.  Fiz menção de levantar a cabeça para olhar.
_É óleo de uva, você vai gostar! Fume senão a brasa apaga - Disse sorrindo e me olhando nos fundo dos olhos. Eu ardia mais do que o narguilé. A massagem evoluiu para meu membro, ela o tomou com as duas mãos e suavemente iniciou movimentos que o deixaram em riste. Ela fazia movimentos de masturbação, detendo-se por vezes na glande,  fazia pequenos torniquetes com os dedos indicador e polegar ao longo do membro, enquanto com a outra mão segurava apertando com suavidade meus testículos. O narguilé havia apagado, mas não interessava mais, pois agora eu me concentrava no prazer intenso que a bela me proporcionava. Perdi a noção do tempo e na nuvem que eu estava a uma altura imensurável agora, podia ver imensas listras coloridas no céu, que como um emaranhado de linhas faziam movimentos hipnóticos. Da parte de trás dessas linhas multicoloridas, surgiam dezenas, centenas de pequenos cilindros de diversas tonalidades e  texturas, que assumiam diversas dimensões e a medida que se aproximavam assumiam o  primeiro plano da visão geral, então explodiam em silencio liberando uma quantidade infinita de confetes aveludados que caiam sobre meu rosto como flocos de neve. Depois agrupavam-se novamente e tomavam a direção contrária, para trás das linhas e assim sucessivamente, por um tempo que eu não consegui determinar. Uma música, a que eu mais  gostava, apesar de não identificá-la tocava num looping interminável que fazia eu quase perder a consciência, não fosse a sensação física que a deusa me proporcionava. De repente uma clarão no céu fez com que tudo desaparecesse e por uma fração de tempo tudo pareceu parar, até a minha respiração. Então ondas de eletricidade me percorreram o corpo, senti os músculos enrijecerem e mil relâmpagos e flashes de todas as cores imagináveis e algumas que nunca vi espocavam ao meu redor. Eu parecia me fragmentar e me tornar, ou não me tornar parte daquela plêiade de acontecimentos etéreos que se sucediam numa velocidade vertiginosa.  Finalmente uma onda mais intensa se sobrepôs a anterior, mas de forma diferente, pois tinha uma suavidade e uma espécie de aveludado que não havia na anterior. Era acolhedora e trazia calma, senti-me voltando lentamente, um sabor de vinho bordeaux embotava-me o sentido do paladar, passei a sentir as costas suadas apoiadas no colchonete, o suor me escorria pelo rosto. Minha anfitriã passava uma toalha úmida e morna no meu abdõmem e em toda minha área genital, completamente despudorada segurava meu pênis como o de um bebê, com movimentos muito delicados procedia a higienização de minhas partes. Por certo eu havia ejaculado em proporções diluvianas a julgar pelas sensações indescritíveis que vivenciei. Eu estava meio sonolento, mas vi que ela me cobriu com um tecido fino como uma seda, uma espécie de véu e através dele vi quando seu tornozelo passou rente ao meu ouvido, tilintando uns sininhos de uma tornozeleira dourada. Fiquei assim por  horas talvez. Quando me dei por conta, levantei de sobressalto me recompus e pude ver que tudo estava arrumado e limpo. A cabeça doía um pouco e o corpo estava meio dormente, cambaleante sai pela porta segundo setas indicativas de saída. na mesinha no topo da escada uma senhora muito gorda e com cheiro de alfazema recebeu o dinheiro, me deu um cartãozinho e me indicou a escadaria com um gesto vago da mão, num tom impessoal e reservado. Desci para a rua,  o sol de final de tarde me ofuscou a visão, olhei o cartãozinho que dizia apenas: " Volte sempre ".



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Tarde em Varadero

Depois do longo e extraordinário orgasmo de Doris Troy em the great gig in tthe sky, finalmente dormi. Acordei com os braços em torno dos joelhos, debaixo de uma frondosa palmeira em uma praia no litoral Cubano. Acho que eram umas 6 horas da tarde e me chegavam aos sentidos o ritmo malemolente de um merengue sendo tocado por uma orquestra típica Caribenha. O horizonte do atlântico se mostrava particularmente calmo naquela tarde, as poucas ondas chegavam em marolas suaves, plácidas como um piano a meia luz em um pub estatal obscuro e quente de Havana. Subitamente fui tirado de  minha contemplação por uma morena linda, nua da cintura para cima com belos, rijos e fartos seios, onde podia se ver uma tatuagem com meu nome. Não sei que raios aquela garota pensou quando tatuou aquilo em suas lindas protuberâncias físicas. Alcançou-me com um alvo sorriso um coco gelado, com uma canudinho azul com uma espécie de guarda-chuvinha em cima, desses de coquetéis tropicais. Sorriu e sentou-se ao meu lado, ombro nu colado no meu, na branca e fina areia de Varadero. Eu poderia transar com ela a qualquer instante se consentisse. Consentiu.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Antúrium


As primeiras gaivotas do dia fazendo enorme alarido sobrevoaram e pousarem na praia, catando seus mariscos na brisa gelada da manhã. A areia já refletia os raios do sol outonal e o cheiro agradável de um oceano limpo chegava até as narinas. Hans abriu os braços espreguiçando-se, depois entrelaçando os dedos atrás da nuca forçou a cabeça para  frente em uma espécie de alongamento, bocejou passando a mão pelos cabelos ralos enquanto o sol surgia atrás de uma nuvem tropical. Caminhou uns dez passos em direção ao mar, parou e girou 180 graus olhando para o lugar de onde acabara de sair, os pés enterrados na areia, fazia movimentos com os dedos sentindo a aspereza dos grânulos a massagearem seus calos. Levantou os óculos acima das sobrancelhas, uma mão coçando a barba por fazer e a outra apoiando o antebraço na altura do cotovelo. O Antúrium, lia-se na tosca placa de madeira sustentada por duas enferrujadas correntes  de ferro, que pendiam do esteio que sustentava toda uma área aberta da enorme construção de madeira a sua frente. A esquerda da entrada em outra placa, essa escrita com giz de cera podia-se ler com alguma dificuldade nos garranchos mal desenhados: “Fechado até a próxima temporada”.
Hans se lembrou das agitadas noites da temporada no Antúrium, quando a musica alta e as risadas tomavam conta do ambiente. Lindas mulheres dançavam e divertiam-se sob o efeito do absinto e da magia das salsas e merengues tocados com entusiasmo pela orquestra de Manolito de la Trinidad. Sorriu ao pensar nos amores tórridos do verão, e  das mulheres que tivera em sua cama no andar de cima do Antúrium, após o término dos trabalhos nas longas madrugadas festivas. Mais a cima à esquerda em uma espécie de promontório, ladeado por centenárias palmeiras, e cercado por enormes muradas de pedra, era possível ver com clareza o solar dos Castelanzza e seu belo terraço, onde passou momentos de muito prazer, ouvindo música, dançando e divertindo-se junto aos proprietários e seu seleto grupo de amigos. As noites no solar dos Castelanzza jamais saiam de sua mente, a música, os jogos, a comida e a bebida farta e a alegria, essas sim não faltavam nunca. Era amado por essa família, não apenas por sua descendência nobre, mas também pelo excelente ópio que costumava presentear aos anfitriões, ópio Chinês que lhe chegava em remessas regulares vindo através do mediterrâneo numa rota exclusiva para a ilha, fora de qualquer linha de investigação. O clima quente da ilha era propício, aos que podiam pagar por bons momentos nos paraísos artificiais, os Castelanzza a tudo podiam e Hans aproveitava a vida dessa forma, consumindo e sendo consumido nesse redemoinho de prazer. Olhou mais uma vez para o Antúrium, precisava de reformas pensou, enquanto virava-se novamente e corria para praia. Como de costume primeiro molhou os pés, depois abaixou-se e com as duas mãos em concha pegou uma porção de água que passou no rosto deixando escorrer pelo peito bronzeado, Correu para dentro d’água por uns metros, quando não pode mais, levantou os braços unindo os polegares com as mãos estendidas para frente e mergulhou vigorosamente nas águas tépidas do Caribe. Foi fundo sentindo cada milímetro de pele em contato com o mar, quando sentiu  a areia fina do fundo, posicionou os pés e flexionando as penas impulsionou-se para cima e para fora d’água. À medida que emergia o verde daquele líquido tornava-se mais claro e brilhante até que viu a luz. Respirou fundo tomando ar, passou as mãos pelo rosto e cabeça tirando o excesso d’água salgada, pode visualizar o bonito contorno de Grapetree Bay. As ainda poucas construções onde se incluíam o Antúrium e o solar dos Castelazza estavam em destaque a sua frente, mas esse último era sobrepujado pelo belíssimo resort do Countessa’s Castle mais acima na colina verdejante. Amanha atravessaria St. Croix para buscar uns peixes no outro lado da ilha, iria a pé vencendo os pouco mais de um quilometro e meio, para tomar alguns martínis no iate clube observando as lindas turistas Francesas. A noite haveria a última  festa da temporada no solar dos Castelanzza, quem sabe não viria acompanhado. A vida sorria para Hans Venizélos, um grego nos trópicos.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Apolinário Porto Alegre

Almanaque - Zero-Hora - 15/04/2011
Mauro Toralles - Interino

sexta-feira, 8 de abril de 2011

No Entardecer


No entardecer da vida
os passos são mais lentos
e o peso da carga maior.
A caminhada é mais longa
e o frio muito intenso,
no entardecer da vida.

No entardecer da vida
a felicidade já não é companheira constante,
a solidão espera adiante na estrada poeirenta
do entadecer da vida.

No entardecer da vida
os amigos não riem mais,
não convidam para um chimarrão,
ninguem nos olha, ninguem nos vê,
no entardecer da vida.

No entardecer da vida
o ar não sacia nossa ânsia de respirar,
não nos é mais prazerosa a briza fresca,
no entardecer da vida.

No entardecer da vida
não se espera um grande amanhecer.
Somente o entardecer da vida.

No entardecer da vida
pensamentos inquietos e negativos,
nos invadem como rio caudaloso
no entardecer da vida.

terça-feira, 29 de março de 2011

Ariovaldo & Ari


Quando cheguei a minha cidade em 1970, fui morar defronte a casa de dois meninos que logo se tornaram meus amigos. Nossa empatia foi imediata e logo começamos a desenvolver uma amizade que marcou nossas adolescências. Eu era um menino que estava vindo do interior apesar de já ter vivido e estudado na cidade, mas numa idade bem inferior.
Nos anos setenta a cultura pop americana começava a chegar ao Brasil e uma grande plêiade de novidades em diversos campos como: Artes, medicina, música e cinema iriam influenciar-nos de toda a sorte. A televisão exercia um fascínio imenso nas pessoas sobretudo na garotada, pois não havia outro entretenimento senão o de passar horas na frente do aparelho. Claro que ainda as atividades e brincadeiras ao ar livre ainda eram a coisa mais importante de tudo. Nas brincadeiras que fazíamos entre outras estavam a de encenar, repetir os seriados que víamos pela televisão. Nos reuníamos com armas de brinquedos, muitas vezes feitas por nós mesmos com madeira ou qualquer material que permitisse emular uma pistola, rifle ou metralhadora. A série combate, que mostrava as aventura de um pelotão da companhia King, em aventuras bem detalhadas passadas na segunda guerra mundial e que mostrava belos detalhas de combates como o dia "D" o famosos desembarque de tropas na normandia. Em uma floresta que havia nas redondezas passávamos as tarde inteiras brincando dessa forma, apesar de ser uma brincadeira de guerra não era de forma alguma violenta e destacávamos mais os atos de bravura e companheirismo como resgates de prisioneiros e ajuda a feridos em combate.
Outra série que víamos e gostávamos era "Kolchak e os demônios da noite" que víamos na pequena televisão preto e branco da família de Ariovaldo e Ari, uma Phillips de 14 polegadas a qual ficávamos concentrados noite a dentro assistindo as aventuras do repórter meio decadente que se metia em diversas enrascadas sobrenaturais, mas que nunca conseguia uma foto que provasse ao seu editor que havia valido a pena a aventura.
Era um lindo tempo de inocência e amizades duradouras.

Dedico esse pequeno texto em memória de meu grande amigo Ariovaldo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Constante & Olvina


O casal mais incrível que conheci foi "seu" Constante e Dona Olvina, velhos conhecidos de meus pais e que tinham um profundo e recíproco respeito, pessoas verdadeiras dessas que raramente se encontra hoje em dia.
Eu tinha cerca de cinco anos de idade quando me conscientizei da presença daquelas pessoas, primeiro Dona Olvina, depois Seu Constante.
Dona Olvina era muito brincalhona comigo e me chamava de "Xixico", o que me deixava muito irritado, mas logo eu era acalmado recebendo uma bela cenoura para roer, as deliciosas cenouras produzidas na propriedade deles.
Dona Olvina era uma mulher de muita fé, e freqüentadora da igreja evangélica desde menina, rezava muito e a todos desejava bons agouros. Seu Constante era um homem trabalhador e muito honesto, mas era um alcoolista irredutível e vez por outra causava constrangimentos a Dona Olivina, que sempre achava uma desculpa para perdoá-lo, pois o amava demais como esposo e homem. Eles eram muito diferentes fisicamente, pois ela era gorda e baixinha e ele muito magro e bastante alto. Era de origem polonesa Seu Constante, um "polaco" como se diz, mas apesar da origem, as inúmeras horas que passava ao sol nas lides agrícolas conferiram a ele uma pele morena, vincada e castigada pelo tempo. Apesar do vício da bebida e do fumo, Seu Constante era um homem de uma alma extremamente bondosa e de um carinho no trato com as pessoas que impressionava a todos, sempre recebendo a todos com um largo sorriso em sua boca desdentada, de onde se sobressaia um único dente, que marcava seu lábio inferior. Ele era mestre em construir casas de "leivas" que são nacos retirados do chão em forma de grandes tijolos que são amontoados em uma espécie de "alvenaria" sendo possível construir uma habitação bastante fresca no verão e quente no inverno. Nos últimos anos que convivemos, o casal construiu uma dessas na propriedade de meu pai em Passo Grande interior de Tapes, ficava localizada longe de nossa casa, no pé de uma colina, próxima a um banhado, onde ele fez um bonito lugar para morar. O rancho que construíram dessa forma era bastante amplo, com quarto, sala e cozinha, era coberto de palha e o assoalho era de chão batido, que muito bem varrido e limpo por Dona Olvina, parecia um piso de cimento. Eram um casal acostumados as agruras da vida e desenvolveram mecanismos de sobrevivência que para nós hoje seriam considerados bizarros: Como consumir carne de diversos animais selvagens como lagarto, gambá entre outros. Tive a oportunidade de comer gambá proparado por eles e digo que foi uma das melhores e mais exóticas carnes que já provei. Minha mãe sempre recebia com carinho os produtos animais que eles nos ofereciam, mas depois dispensava-os não era afeita a carnes de caça. Os bolinhos de arroz que Dona Olvina fazia eram muito bons também, com um tempero a base de ervas que era o fino. Uma certa vez no aniversário de Seu Constante, eles receberam a visita de pessoas da igreja de Dona Olvina que sempre tentavam converter o velho Constante, e nesse dia eles tocaram muitos hinos com uma pequena banda formada por banjo, acordeon e violão ao qual eu achei espetacular. Nesse dia seu Constante tomou uma grande bebedeira, bebendo de uma garrafa que tinha escondido em casa, causando um grande constrangimento a Dona Olvina, que ficou muito envergonhada.
Certa vez Seu Constante trabalhando no mato deu um grande corte em seu pé, com o machado e que quase lhe amputou o membro, foi muito triste ver seu Constante com o rosto crispado de dor aguardando a chegada de um vizinho de carro para levá-lo para o hospital, nesse dia eu nada falei apenas o observei, pedindo a Deus que ele ficasse bom, o que na verdade aconteceu.
Com os ventos negros de mudança que começaram a ocorrer no início dos anos setenta em minha família, separamo-nos daquele casal, mas nunca os esquecemos e até os últimos anos de vida de minha mãe, ela sempre se referiu a eles com muito carinho e consideração. Nunca mais os ví, mas passados quarenta e tantos anos ainda lembro com detalhes de Seu Constante e Dona Olvina, a mulher que me pegava no colo e me dava muito carinho, nunca esquecerei o seu doce cheiro de ervas e temperos que exalava. Acredito que os dois já tenham morrido e onde quer que estejam, agradeço, por te-los conhecidos e convivido com eles mesmo que por poucos anos, mas que ficaram marcados de forma indelével e minha vida. E ofereço esse pequeno texto em sua homenagem.